Estive um bom tempo sem escrever aqui, eu sei. Também nunca mais gravei nenhuma música, é verdade.
Mas para tudo tem uma explicação. E eis a explicação do meu sumiço:
É natural de qualquer grande astro da música envolver-se em algum tipo de confusão. Você não é nada na música contemporânea, se nunca destruiu um quarto de hotel, por exemplo.
E eu, não sei se você sabe, moro em um flat – o que é bem próximo de um hotel. Já havia quebrado um cabo de panela aqui e achei que isso fosse bastar para lançar minha carreira-solo. Não sou de tumulto e não queria fazer nada mais que isso.
No entanto, um cabo de panela quebrado não seria o bastante. Então, resolvi jogar alguma coisa pela janela.
Joguei a revista da Net. Que caiu justamente em cima do retrovisor externo de um fusca, deixando o motorista sem visão na hora de manobrar. Sem conseguir enxergar direito na hora da ré, ele acabou esbarrando em uma raríssima árvore, onde morava um coala – espécie também bastante rara aqui no Brasil.
Para meu azar, um grupo de manifestantes pró-coalas estava no restaurante aqui em frente, vendo a cena. Imediatamente chamaram a polícia e eu fui preso.
Vocês não fazem idéia de como é difícil a vida na cadeia.
Pra começar, eles sequer serve um couvert decente no almoço. E são pouquíssimas opções de sobremesa – quase sempre eu ficava mesmo com o petit gateau de doce de leite com sorvete Vipiteno.
Foram alguns dias encarcerado, com um companheiro de cela que falava sem parar de como eram espetaculares os filmes do Glauber Rocha. Eu estava torcendo para ser mandado à solitária.
A TV da minha cela não pegava bem aquele canal HBO que reprisa os filmes da HBO principal algumas horas mais tarde. Como às oito da noite, tínhamos sempre uma degustação de vinhos, eu não conseguia nunca ver os filmes do horário nobre – não tinha como conciliar as duas coisas. Era desesperador.
Minha única leitura na prisão era a lista telefônica, que tornou-se em pouco tempo meu livro de cabeceira. Quando eu já estava na letra M, tiraram-na de mim. Fiquei sem saber o que aconteceria na letra N.
Mas cumpri a minha pena, finalmente. Já posso me reintegrar à sociedade e voltar a compor.
Talvez eu escreva uma música ou duas sobre esse período de terror que foi a cadeia.
Espera, mas você lia a ‘Lista Telefônica da Cidade do Rio de Janeiro’ ou uma outra aí qualquer? Porque se fosse a ‘Lista Telefônica da Cidade do Rio de Janeiro’ você meio que tem que saber o que tá na letra N, né? Digo, já que você quem escreveu o livro.
Ah, lembrei-me de quando criei meu blog. Em busca do sucesso imediato como blogueira iniciei um quebra-quebra geral no meu quarto mesmo, que me garantiu algumas horas de arrumação depois, mas nunca me rendeu um leitor sequer.
Acho que essa técnica de destruir quartos só funciona com hotéis. E não dá muito certo para divulgar blogs. Felizmente, nenhum coala saiu ferido.
Além de ser hotel, tem que ser um hotel classudo como o Unique ou o Maksoud, porque na cracolandia ou no largo da batata tem quebra-quebra todo dia e ninguém fica famoso por isso.
Daniell, tenho uma pergunta.
Por favor, gostaria de saber o telefone do Manoj Nelliyattu Shyamalan.
Obrigado
Guilherme
Monique: eu estava lendo a de São Paulo mesmo. A do Rio, fui eu que escrevi. Mas é sempre interessante ver como fazem os outros escritores de lista telefônica. Cada um tem um estilo próprio, sabe? Eu, por exemplo, gostava de incluir também os apelidos das pessoas.
Gi: mas eu comecei a ler o seu blog justamente porque vi as notícias sobre o seu quebra-quebra no quarto. A repercussão foi grande, em especial com quantidade de cabides que você parece ter arremessado pela janela.
Vera: muito bem lembrado. Aliás, talvez o dia em que alguém não fizer um quebra-quebra nesses lugares, essa pessoa fique famosa. Acho que vou tentar isso: vou à cracolândia e não vou quebrar nada. Serei lembrado pra sempre por isso.
Guilherme: não encontrei na minha lista. Ele tem algum apelido? Ou talvez esteja no nome da esposa dele, a Mmsdkt Nelliyattu Shyamalan…