Fui convidado para compor a trilha de um filme de cinema. É a história de um aspirante a dançarino de valsa que precisa enfrentar a dificuldade de ser, na verdade, um alce e não um ser humano.
A história me pareceu interessante. E ainda assim, recusei o convite. Primeiro, porque não consigo compor valsas – só sei fazer cha-cha-chas e afins. Mas principalmente porque já tive experiências ruins com o cinema.
Na época, eu estava me lançando como roteirista. E quis escrever uma história que tivesse um grande vilão. Por isso, fiz uma vasta pesquisa sobre os maiores vilões da história.
Concluí que nenhum chegava aos pés de Ricardo III, naturalmente.
Veja, por exemplo, o Mxyzptlk da Liga da Justiça. Talvez você se lembre dele. Mxyzptlk era um homenzinho, algo parecido com um duende que ficava flutuando e atormentava os heróis usando de artimanhas – que, essas sim, eu já não lembro muito bem.
Era um bom vilão, é verdade. No entanto, bastava fazê-lo dizer seu nome ao contrário para que ele fosse arremessado de volta à sua dimensão. Não é o tipo de fraqueza adequada a um grande vilão, principalmente quando ele cai o tempo todo no velho golpe de mandá-lo ler o seu nome ao contrário.
Fico pensando se Ricardo III fosse enviado à dimensão de onde veio só porque disse “III odraciR”. Duvido muito que conseguisse chegar à cena do “meu reino por um cavalo”. Não tem como um vilão como Mxyzptlk render uma boa história.
Em defesa de Mxyzptlk, claro, tem o fato de o nome dele ser bastante complicado de se dizer, mesmo sem ser de trás pra frente. Mas ainda assim, não basta para acrescentar um caráter tridimensional ao personagem.
Acontece que, no meu roteiro para cinema, o vilão era uma espécie de mistura entre Ricardo III e Mxyzptlk. Procurei pegar os detalhes mais interessantes de cada personagem e juntei em um só.
Acabou ficando um sujeito corcunda que flutua no ar e apronta artimanhas – isso, Ricardo III e Mxyzptlk já tinham mesmo em comum.
Achei que bastava isso para que o vilão fosse um sucesso. Mas eu havia esquecido de criar um herói. E não existe vilão sem um herói para confrontar.
Na falta de herói no meu roteiro, o vilão tinha que desafiar um chapéu-coco. E perdia feio porque o acessório estragava o seu penteado no final.
A história não agradou ao público em geral – embora tenha sido muito elogiada por um fabricante de chapéus-coco. O filme deu um prejuízo nunca antes visto, ainda pior que os dos filmes do Kevin Costner.
E, desde então, tenho evitado trabalhar com cinema.
waterworld que o diga!
Será q
Será q se falarmos Waterworld ao contrário o filme desaparece?
Duvido que deu mais prejuízo que o Kevin Costner, você está querendo se gabar. Ele quase ganhou o Oscar de maior prejuízo do cinema pelo seu “conjunto da obra”.
Por dó, assisti a “Waterworld” no cinema. Acabei ficando com dó de mim.