Um dia, acordei com uma ligação. Naturalmente, isso já havia acontecido mais de uma vez. Mas só daquela vez era o ¥jaarstörbårg. Atendi o telefone, com a voz de sono:
- Só sucesso. – eu costumo atender o telefone dizendo “só sucesso”, pro caso de ser uma promoção dessas de rádio AM oferecendo um prêmio para quem atender assim.
- Daniell? – perguntou a voz do outro lado, fazendo-me perceber que não era uma rádio AM e, infelizmente, eu não iria ganhar um prêmio (é sempre uma decepção quando acontece).
- Sim, sou eu. Ou coisa assim.
- Faaaaaaaala, Daniell! – disse, eufórico, tão eufórico que eu pensei que eu fosse, enfim, ganhar um prêmio.
- Oi.
- Não tá me reconhecendo?
- Claro que não. – assim, de manhã, pego de surpresa, meu raciocínio fica lento demais para eu ser falso.
- Aqui é o ¥jaarstörbårg!
O nome não me era estranho, apesar de ser bem estranho. Quando eu estava me esforçando para lembrar de onde o conhecia, ¥jaarstörbårg ajudou:
- Estudamos juntos na sexta série B!
Sim, claro. ¥jaarstörbårg. O garoto que sentava na frente da sala na terceira série B. Lembro que havia chegado à escola como parte de um programa de intercâmbio. Era da Suécia ou de Serra Leoa, não lembro bem.
- ¥jaarstörbårg! Quanto tempo! Como estão as coisas na Suécia?
Ele corrigiu. Era de Serra Leoa. E explicou que agora estava no Brasil de novo, que estava marcando de juntar o velho pessoal da sexta série B para relembrar os bons tempos.
Combinamos naquele barzinho que ficava em frente à escola, só para termos a vista para o portão de entrada.
O barzinho não existia mais. Era agora uma clínica de raio-x. Ainda assim, marcamos lá. Todos nós solicitamos radiografias variadas – eu pedi dos pulmões, porque gosto do desenho que eles fazem na chapa – e ficamos ali, conversando na sala de espera, como se fosse um bar.
Sempre é bom reunir o pessoal e ver como todo mundo está mudado. Dois deles estavam casados, três divorciados e um já tinha um filho de 5 anos que era pianista da filarmônica de Berlim. O garoto ainda morava com o pai, no Brasil, e fazia os concertos por telefone, ligado no viva-voz.
Lembramos de histórias muito legais. Por exemplo, do dia em que ¥jaarstörbårg se meteu em uma confusão com os garotos da oitava série por causa de um misto quente e um radiador velho.
Teve também o dia em que eu respondi todas as questões de geografia usando regra de três. Eu havia estudado para a prova errada. Tirei 2,5 porque acertei quantos afluentes tem o Amazonas – “muitos”, era a resposta certa.
Ficamos lá, conversando e tirando chapas de raio-x até altas horas, relembrando os tempos de outrora. Até que ¥jaarstörbårg começou a falar qualquer coisa de um negócio parecido com a AmWay, mas que não era a AmWay porque só vendia artigos para pecuária.
A princípio, parecia bem estúpido comprar artigos para pecuária. Mas ¥jaarstörbårg explicou que a cada 100 Reais em compras, ganhávamos um cupom para o sorteio de uma linda caneca em forma de vaquinha. Todos nós compramos.
E agora estou com a varanda de casa entulhada de artigos para pecuária, esperando sair o sorteio. Tô de olho naquela caneca e o meu número é 592. Acho que vou ganhar, porque esse é meu número da sorte.
Só sucesso, eis um belo jeito de atender o telefone.
Ri do começo ao fim. Genial!
Ri do começo ao fim. Genial! [2]
Ri alto na Artplan.
Acho que vão desconfiar que não era do job de Inter.
Taísa: provavelmente era o mais usado, antes de inventarem o “alô”.
Rafael: uau. Obrigado.
Brunoruchigal: uau. Obrigado. [2]
Rena: ei, você por aqui, Renatinha! Que legal! Qualquer coisa diz aí na Artplan que você tava rindo de uma coisa que o Jorge falou.