Você pode pensar que a vida de detetive particular é moleza. Que basta ficar lá sentado no seu escritório, bebendo bourbon e esperando alguma loira hitchcockiana entrar pela porta. Sim, você pode achar que um detetive, desses clássicos, só se envolve em casos interessantes e cheios de intrigas. Você pode imaginar aquele sobretudo, o chapéu, a fumaça de cigarro e os enigmas intricados que ele, o detetive, resolve.
Você pode pensar tudo isso, como eu também já havia pensado. E foi por isso que, depois de um curso por correspondência de detetive particular e umas partidas de Scotland Yard, aluguei uma salinha na Teodoro Sampaio – entre uma loja especializada em gaitas de fole e um estúdio de gravação especializado em mambo -, onde comecei a atender.
“Daniell, Sapateador”, dizia a plaquinha da porta. Eu não encontrei nenhuma plaquinha que tivesse os dois Ls de “Daniell” e disesse “Detetive Particular” em seguida. Então, fiquei com essa de “Sapateador” mesmo.
Na minha imaginação pueril, eu ainda tinha aquela imagem do detetive que conhecemos de filmes, a mesma que já descrevi aqui. Descobri a duras penas todas as dificuldades daquela vida.
Pra começar, apesar das dicas do curso por correspondência, eu continuava péssimo como enigmas. Não consigo adivinhar sequer a resposta daqueles “o que é, o que é” mais básicos e ainda me enrolo em jogos dos sete erros. Que dirá desvendar um assassinato misterioso ou o estranho sumiço de um diamante raro.
No entanto, o mais difícil mesmo foi deixar a salinha pronta e arrumada, para o caso de a loira hitchcockiana aparecer ali.
O que complicou foi que eu não fumo. Então não tinha como ter a fumaça do cigarro, elemento essencial em qualquer bom escritório de detetive particular. Para improvisar, coloquei um incenso sobre a mesa. A fumaça funcionava e os mais desavisados poderiam até pensar se tratar de um cigarro. Mas o cheiro era o problema. Em pouco tempo, a salinha ficou cheia de pessoas interessadas em aulas de ioga.
Eu sei tanto de ioga quanto sei de investigações: nada.
Mas não poderia decepcionar os clientes. Então, comecei a dar aulas de ioga. Improvisava posições, todas bem difíceis para quem, como eu, estava de sobretudo, chapéu e sapatos de sapateado.
Apesar de tudo, as aulas iam bem. Eu fazia algum sucesso e sempre havia gente querendo aprender ioga na minha salinha. A coisa foi se espalhando e um dia ela entrou na sala, a loira hitchcockiana.
- Olá, boneca. – falei com ela do jeito que o curso por correspondência ensinava os pretensos detetives a falar com mulheres.
- Dizem por aí que você dá aula de ioga.
- Eles dizem muitas coisas, boneca.
- Eu quero ter aulas de ioga.
- Veio ao lugar certo, boneca. Dizem que eu sou o melhor.
- Se é o que dizem…
A garota era uma bomba.
Todo homem cresceu admirando as loiras hitchcockianas. Por mais que você, como eu, acabe descobrindo uma preferência pelas morenas audreyhepburnianas, as loiras hitchcockianas continuam existindo e merecendo a sua admiração, aquela mesma de quando você era garoto e viu Grace Kelly em “O Ladrão de Casaca”.
E talvez seja justamente por remeter aos tempos mais ingênuos que, quando se depara com uma delas, o homem se empenha com o único objetivo de impressioná-la. Exatamente como faz o garoto da escola na aula de educação física.
Sim, admito. Eu quis impressionar aquela loira hitchcockiana, como se eu fosse novamente um menino de, sei lá, treze anos. E por isso desenvolvi para ela uma aula de ioga especial, mais difícil, tentando mostrar a maestria com que eu me contorcia sem deixar o chapéu cair (ele estava, por garantia, colado com fita crepe na minha cabeça). Foi por isso que eu decidi inventar um movimento mais complicado.
A loira hitchcockiana, coitada, tentou imitá-lo exatamente como eu havia feito. Destroncou-se toda, a coluna cervical foi parar nos quadris e os quadris eu não sei ainda onde foram parar. Sei que a loira hitchcockiana saiu da salinha numa maca, direto para o pronto-socorro do Hospital das Clínicas.
Nunca mais tive notícia dela, só do advogado dela. Mas estamos nos entendendo bem, o advogado e eu. Ele também usa sobretudo e chapéu. Então, no decorrer do processo, entre uma acusação e outra, temos conversado bastante sobre marcas de sobretudo e como prender bem o chapéu na cabeça. É um bom sujeito, o advogado da loira hitchcockiana. Também entrou nisso de advocacia por causa das intrigas e as salinhas. A vantagem que ele leva é que ele, sim, fuma.
Excelente, boneca. Praticamente já é um paulistano.
Eu descobri o blog hoje e já li todos os textos.. ahn.. não sei bem se os méritos são seus… ou se sou só mais uma obsessiva compulsiva.. Voltarei para ver se descubro a resposta para essas dúvidas existenciais..
Clap, clap, clap, ótimo, como sempre…
coluna “cervical”, com “c”
de resto tá ótimo
Babaquara: opa. Já corrigi. Obrigado!
Esse detetive era dublado.
Mas admito que boneca é bem melhor que baby.