Com o tempo eu fui adquirindo hábitos mais sofisticados. Comecei trocando o miojo com tempero sabor carne por miojo cremoso sabor frango caipira. E uma vez que você começa, não consegue parar. À medida em que uma vida mais elegante e cara vai se descortinando à sua frente, você fica insatisfeito com tudo aquilo que fazia parte do seu regime diário e vai atrás de novidades, de receitas diferentes.
Foi assim que, em pouco tempo, tornei-me um gourmand. Não queria mais saber de nada que não levasse ingredientes finos na receita. Miojo, por exemplo, só o cremoso com tempero sabor trufas reais.
Quando percebi, já estava frequentando os jantares mais disputados da cidade, daqueles com mesas repletas de talheres e taças. Em um jantar desses, você precisa causar boa impressão. Se você for parar em uma mesa repleta de milionários, saiba que está sendo avaliado constantemente e os seus assuntos precisam ser tão interessantes quanto os de todo mundo na mesa.
Nas mesas a que fui convidado, o assunto quase sempre passava por obras de arte. Era como nas mesas de bar, quando falamos de desenhos animados. Só que em um ambiente sofisticado, em vez de se falar do Pica-Pau descendo num barril as Cataratas do Niágara, fala-se em quadros, esculturas, vasos e objetos de valor.
Nisso, eu tinha pouca experiência – ou quase nenhuma. Sabia, por exemplo, apreciar um Van Gogh. Mas jamais havia dado um lance em um. E era a parte de “dar o lance” que mais importava. Não bastava saber que o quadro dos corvos no campo de trigo era uma das obras mais completas do pintor , era preciso saber quanto aquilo valia num leilão.
Os jantares, portanto, acabaram me levando aos leilões. Decidi me tornar um colecionador de obras de arte.
Um leilão, você talvez saiba, é um ambiente tenso. Nos mais sérios, qualquer mínimo movimento pode configurar um lance. Sentado no meu banquinho, eu tentava permanecer o mais parado possível, respirando pouco.
Em certa ocasião, eu estava especialmente com sono por ter passado toda a noite anterior tentando resolver um cubo de Rubik (coisa que eu consegui fazer só às seis da manhã com a ajuda de uma lata de tinta). Aprenda com o meu erro: se você estiver sonado, um leilão não é o melhor jeito de espantar o cansaço.
O leiloeiro apresentava um copo de vidro rachado numa das laterais. O copo era bem comum e parecia precisar de um bom detergente. Mas a rachadura era atribuída a um esbarrão que Degas havia dado nele quando mostrava a uma bailarina a posição que ela deveria assumir para que ele a pintasse. Isso fez com que o valor do copo ficasse, curiosamente, bem mais alto que o próprio quadro que Degas havia pintado na ocasião, um quadro menor em que a bailaria demostrava claramente um problema na coluna.
O copo rachado de Degas estava sendo leiloado. O valor já ia a mais de 500 mil Euros. E eu estava com sono. À medida em que o leiloeiro repetia os lances dados, o sono ia aumentando:
- 530 mil… 530 mil… eu ouvi 550? 550 mil.. 550 mil… 560. 560 mil…
A coisa ficou insustentável e eu bocejei. Um bocejo, em leilões como aquele, pode significar que você dobra o lance. São as regras não-escritas do leilão, ninguém discute isso. Bastou que eu abrisse a boca tentando oxigenar o cérebro para o leiloeiro se animar dizendo em tom firme:
- 1 milhão e cento e vinte mil Euros. Eu ouvi 1 milhão e cento e vinte e oito mil?
Fiquei tenso. Ninguém mais ofereceu outro lance.
- Dou-lhe uma.
Eu ia arrematar o copo rachado de Degas, sem querer.
- Dou-lhe duas.
Olhei em volta, na esperança de alguém ter coçado a cabeça ou ajeitado os óculos, para que eu pudesse acusá-lo (“Ele ali, ó!”). Mas nada.
- Dou-lhe três. Vendido para o cavalheiro de sombrero e pantufas de pata de urso.
(Eu sempre vou vestido assim aos leilões para ajudar o leiloeiro a me descrever, num caso desses.)
Pronto. Era meu, todo meu. Aquele copo rachado. Pela bagatela de 1 milhãos e cento e vinte mil Euros. Perguntei se eu podia, ao menos, trocar por um copo que estivesse em melhor estado. Não deixaram. Tive que levar aquele mesmo, que tinha a rachadura de Degas.
Hoje, só bebo naquele copo. Levo-o aos restaurantes e peço que me sirvam a bebida, seja ela qual for, naquele copo rachado. Saiu bastante caro e eu preciso fazer valer o investimento.
Fui a um leilão certa vez, e arrematei um telefone que não funciona. Ele é de madeira. Para mim foi bom porque nunca mais recebi telefonemas de pessoas me oferecendo enciclopédias, cursos de digitação com curso de espanhol de brinde, e livros de receitas para contribuir com obras de caridade.
Também sou exigente nas minhas escolhas culinárias: sempre peço o prato com o nome mais comprido e incompreensível, e já tive ótimas (e algumas não tão ótimas) surpresas, como fatias de polvo cru e uma sopa de coentro horréééével.
Esse telefone de madeira, Badá, parece uma boa saída para fugir de telemarketings. Mas paga-se um preço por essa comodidade: imagine quantas boas enciclopédias você não deixou de comprar por causa disso?
E cursos de digitação? Eu já estou no meu quinto curso de digitação e finalmente aprendi a usar aquele tecladinho menor aqui ao lado, que só tem números.
Polvo cru, por outro lado, é sempre uma boa opção. E eu acho curioso o fato de que não se pode dizer algo como “o restaurante tal prepara um polvo cru melhor que os outros”, porque polvo cru é cru e, portanto, já vem pronto de fábrica.
(Gosto particularmente de pedir pratos sem saber do que se tratam. Depois, vou no google images e tento descobrir o que era.)
oiok