Em se tratando de política, procuro me manter afastado especialmente dos extremistas. Mas já tive minhas complicações com um grupo de extremo centro. Era uma dissidência dos Carecas do ABC, que na verdade usava mullets e vinha da Baixada Santista.
Eu levava meu porquinho-da-Índia para a natação (recomendação do médico dele), quando esbarrei em uma passeata. Eles simpatizavam com os integralistas e tentavam se vestir mais ou menos como os galinhas-verdes, mas com penachos, esplendores e bicos de plástico. Carregavam estandartes com símbolos estranhos. A princípio, pensei tratar-se de um ensaio de escola de samba do grupo de acesso. Só entendi que era um grupo de radicais quando não vi nenhuma Rainha de Bateria e notei que o mestre-sala trazia uma bola de aço repleta de espinhos.
Era um protesto pela extradição do pão francês. Muito nacionalistas, aqueles rapazes.
Dei azar. Eu estava justamente comendo uma torta holandesa. Partiram para cima de mim com toda sorte de armas brancas e ofensas desmedidas. Fugi pelas ruas e fui buscar abrigo em um beco sem saída, o que na hora pareceu fazer algum sentido.
Eu estava cercado por extremistas, apavorado, tentando terminar o meu pedaço de torta holandesa, minha última refeição. Puxaram porretes, correntes, machados e barbatinho cheiroso. O que me salvou foi quando um deles tirou um soco inglês do bolso e gerou controvérsia no grupo. Distraíram-se trocando sopapos entre si e eu aproveitei a deixa para ir embora. Alguns deles, imediatamente redimidos, vieram comigo. Em fila indiana.