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E na época da faculdade de economia acabei me inscrevendo na matéria Arqueologia 3. Achei que seria um bom jeito de evitar Cálculo 2, já que as aulas eram no mesmo horário. E a única exigência era que eu precisava ter feito Pedalinho 1 – matéria em que havia tirado a melhor nota.

Arqueologia 3 parecia ser uma boa matéria, porque em geral essas coisas que os arqueólogos estudam já estão mortas há muito tempo e não costumam incomodar mais, bem diferente das integrais e derivadas que, bem vivas, atormentavam-me diariamente.

Foi durante um trabalho em grupo que descobri um velho diário na biblioteca da faculdade.

O diário trazia relatos sobre um antigo pedaço de pizza. Um pedaço de pizza pré-colombiano. De pepperoni, com massa grossa. Esse pedaço de pizza estaria na cidade perdida de Ptcelz, na Guatemala, possivelmente entre as almofadas de um velho sofá pré-colombiano.

De acordo com a lenda guatemalteca, quem encontrasse o pedaço de pizza se tornaria dono de um grande poder. Ou de uma grande indigestão, dependendo da tradução que você estivesse lendo do diário.

Senti-me instigado a procurar a tal da pizza pré-colombiana. Segui as pistas do diário e fui até Ptcelz, a cidade perdida. Foi difícil chegar lá porque não havia voo direto do Galeão e minha bagagem extraviou em uma das conexões. (Em compensação, acumulei milhas o bastante para ir à cidade perdida de Ctlplecz nas férias seguintes.)

O precário sistema de metrô da cidade perdida de Ptcelz me deixou mais ou menos próximo ao objetivo. Encontrei lá o tal do sofá, posicionado em frente a uma TV pré-colombiana que estava sintonizada no Fantástico pré-colombiano. Cuidadosamente, coloquei a mão entre as almofadas do sofá e encontrei aquele pedaço de pizza, intocado.

Era uma descoberta fantástica. Provava que antes mesmo de Colombo chegar às Américas, o entregador da pizzaria já havia chegado, direto do Velho Mundo, já que na época o único serviço de entregas nas Américas era o de comida chinesa.

De volta à faculdade, deixa a fatia aos cuidados de cientistas. A conclusão a que chegaram foi de que  o entregador deve ter levado mais de meia hora para chegar com a pizza e dificilmente recebeu uma boa gorjeta.

Fever Dog

Medo é uma palavra que não existe no meu dicionário. Nem “mortadela”. É que algum engraçadinho arrancou a letra M inteira dele.

Mas, de qualquer modo, sou um homem de coragem. Mais que coragem: ousadia. Mais que ousadia: inconsequência. Mais ainda que inconsequência: estupidez.

Estupidez, sim, é o máximo da coragem.

Posso contar histórias a respeito disso.

Por exemplo, quando fiquei gripado. Fui tomar remédio. Auto-medicado, como faria qualquer sujeito corajoso o bastante a ponto de ser estúpido. Escolhi um daqueles que são dois comprimidos, cada um de uma cor. Tinha tudo para funcionar bem.

No entanto, eu não sabia qual tomar primeiro. Escolhi uma ordem ao acaso.

O acaso não costuma me ser muito generoso e, portanto, escolhi a ordem errada. Agora, atenção. Jamais tome um remédio desses, de dois comprimidos, fora da ordem. Os efeitos podem não ser muito agradáveis.

Deitado na cama, vi meu quarto se transformar em um grande campo de trigo, com o sol brilhando e um lindo córrego. A brisa soprava notas musicais e eu ouvi a melodia de “Strawberry Fields Forever”. Não parecia haver motivo para reclamar desse delírio, até que os elefantes furiosos apareceram. Eles pareciam estar procurando alguém. E o lado ruim é que esse alguém, provavelmente, era eu.

Acredite: a desvantagem de se estar em um lindo campo de trigo em meio à natureza é que, em caso de estouro de elefantes furiosos, você não tem um abrigo antinuclear onde se proteger. Tentei me esconder em meio ao trigo, encolhendo-me o máximo que pude. Fui pisoteado.

Ainda que em delírio, ser pisoteado por elefantes é ruim. Não que a sensação fosse tão real que pudesse me quebrar as costelas. Mas de qualquer maneira, é uma sensação que todos preferimos evitar. Psicologicamente falando, não é muito confortável.

Eu ando na linha. Sou um sujeito cumpridor dos meus deveres e evito confusão. Eu vejo a cena da perseguição de carros em “A Supremacia Bourne” e penso em quantas multas aqueles sujeitos não devem ter levado dirigindo daquele jeito.

Mas isso é porque eu já tive os meus dias loucos. Fui um jovem transgressor e já fiz muita besteira nessa vida, coisas que não gostaria de ver um filho meu fazendo.

Dei muita preocupação em casa quando, na minha mocidade, eu decidi que iria pisar na grama toda vez que uma plaquinha me pedisse o contrário.

Eu sei, eu sei que as pessoas vão ficar chocadas, mas eu tenho que confessar: já tomei Toddynho sem agitar antes de beber.

Era o meu jeito de me rebelar contra o sistema. Minha forma de protesto: eu não seguia regras escritas. Só as musicadas. Até hoje, tudo que eu acredito cabe nas discografias dos Beatles e do Simonal, de verdade.

Eu era perigoso. Inimigo público mesmo. Daqueles que colocavam os cotovelos sobre a mesa nos restaurantes.

Tive também muitos problemas por isso. As pessoas me evitavam. Espalharam retratos falados meus por aí. Pra minha sorte, os retratos foram pessimamente desenhados e saíram com a cara do James Brown. Foi a razão de uma das prisões dele.

Hoje sou outro homem. Hoje, eu respeito as leis escritas. As leis de trânsito, por exemplo. Se bem que, em “Carango”, o Simonal ensina que depois das seis tem que acender o farol do carro. E, se não me engano, “I Am the Walrus” fala sobre a importância de nunca fechar o cruzamento.

Primeiro, fiquei preocupado porque achei que não sonhava mais. Achei que fosse efeito das coisas da vida, da crise dos trinta, da perda de todas as ilusões ou do alfajor que eu estava comendo toda noite antes de dormir.

Mas bastou uma análise não muito profunda para eu perceber que, na verdade, não era que eu não sonhasse. O problema era lembrar os sonhos quando acordava.

Tentei resolver isso deixando um bloquinho e uma caneta no criado-mudo. Mas eu me mexo um tanto quando durmo. Acabava inevitavelmente derrubando o bloquinho, a caneta e, vez ou outra, até mesmo o criado mudo. Acordava todo dia e ficava buscando as coisas pelo chão do quarto, com a visão ainda debilitada pelo sono. Quando finalmente as encontrava, já havia dado tempo de esquecer o sonho.

E foi então que eu encontrei a solução. Na revista que assino, “O Levitador Moderno”, vi o anúncio de um lugar que conseguia ler os meus sonhos, gravá-los num DVD e ainda dava de brinde uma bonita mochila com a marca deles impressa.

Liguei para lá e marquei a consulta. Cheguei na clínica e eles plugaram fios na minha cabeça. Tocaram “I’m Only Sleeping”, dos Beatles, para facilitar o sono. Não ajudou muito o fato de a sala ao lado ter sido alugada pelo Centro de Tradições Escocesas para o ensaio da Maior Orquestra de Gaitas de Fole do Mundo. Mas ainda assim, caí no sono.

Acordei na manhã seguinte e eles me entregaram o DVD com o sonho registrado.

Fui para casa e, no caminho, passei na Cultura pra comprar um livro de interpretação de sonhos. Não tinha o de Freud, então levei escrito por um famoso neurologista – o mesmo autor de “O que Podemos Aprender com os Colecionadores Compulsivos” e “Só Sofre de Síndrome de Tourette Quem Quer”.

Coloquei o DVD para tocar, ansioso para descobrir como têm sido os meus sonhos.

Começava com uma cena dramática. No sonho, eu era um policial e havia sido baleado. Mas voltava à vida graças a implantes cibernéticos e combatia o crime e a corrupção. Era bem impressionante o modo como o DVD registrava tudo. Foram quase duas horas de sonho e terminava com créditos passando pela tela.

Só muito depois percebi que eu havia sonhado o Robocop inteiro, do início ao fim.

O livro de interpretação de sonhos foi bem claro quanto a isso: sonhar com Robocop do início ao fim quer dizer que temos uma vontade reprimida de comprar mais livros do mesmo autor.

Curiosamente, todos os sonhos eram interpretados assim, menos aquele em que sonhamos que estamos ensinando polca a um grupo de índios apache – esse, ele interpretava como “vontade reprimida de ensinar polca a índios apache”.

Agora, tenho todos os livros dele, incluindo o polêmico “De Onde Vêm os Bebês-Girafa”, proibido em quase todo o Oriente Médio (estranhamente, menos no Irã). Trata-se de um escritor realmente polêmico e isso pode ser notado no ensaio em que ele se refere a Salman Rushdie como “um borra-botas covarde e maricas”, nestes termos.

Com o tempo eu fui adquirindo hábitos mais sofisticados. Comecei trocando o miojo com tempero sabor carne por miojo cremoso sabor frango caipira. E uma vez que você começa, não consegue parar. À medida em que uma vida mais elegante e cara vai se descortinando à sua frente, você fica insatisfeito com tudo aquilo que fazia parte do seu regime diário e vai atrás de novidades, de receitas diferentes.

Foi assim que, em pouco tempo, tornei-me um gourmand. Não queria mais saber de nada que não levasse ingredientes finos na receita. Miojo, por exemplo, só o cremoso com tempero sabor trufas reais.

Quando percebi, já estava frequentando os jantares mais disputados da cidade, daqueles com mesas repletas de talheres e taças. Em um jantar desses, você precisa causar boa impressão. Se você for parar em uma mesa repleta de milionários, saiba que está sendo avaliado constantemente e os seus assuntos precisam ser tão interessantes quanto os de todo mundo na mesa.

Nas mesas a que fui convidado, o assunto quase sempre passava por obras de arte. Era como nas mesas de bar, quando falamos de desenhos animados. Só que em um ambiente sofisticado, em vez de se falar do Pica-Pau descendo num barril as Cataratas do Niágara, fala-se em quadros, esculturas, vasos e objetos de valor.

Nisso, eu tinha pouca experiência – ou quase nenhuma. Sabia, por exemplo, apreciar um Van Gogh. Mas jamais havia dado um lance em um. E era a parte de “dar o lance” que mais importava. Não bastava saber que o quadro dos corvos no campo de trigo era uma das obras mais completas do pintor , era preciso saber quanto aquilo valia num leilão.

Os jantares, portanto, acabaram me levando aos leilões. Decidi me tornar um colecionador de obras de arte.

Um leilão, você talvez saiba, é um ambiente tenso. Nos mais sérios, qualquer mínimo movimento pode configurar um lance. Sentado no meu banquinho, eu tentava permanecer o mais parado possível, respirando pouco.

Em certa ocasião, eu estava especialmente com sono por ter passado toda a noite anterior tentando resolver um cubo de Rubik (coisa que eu consegui fazer só às seis da manhã com a ajuda de uma lata de tinta). Aprenda com o meu erro: se você estiver sonado, um leilão não é o melhor jeito de espantar o cansaço.

O leiloeiro apresentava um copo de vidro rachado numa das laterais. O copo era bem comum e parecia precisar de um bom detergente. Mas a rachadura era atribuída a um esbarrão que Degas havia dado nele quando mostrava a uma bailarina a posição que ela deveria assumir para que ele a pintasse. Isso fez com que o valor do copo ficasse, curiosamente, bem mais alto que o próprio quadro que Degas havia pintado na ocasião, um quadro menor em que a bailaria demostrava claramente um problema na coluna.

O copo rachado de Degas estava sendo leiloado. O valor já ia a mais de 500 mil Euros. E eu estava com sono. À medida em que o leiloeiro repetia os lances dados, o sono ia aumentando:

- 530 mil… 530 mil… eu ouvi 550? 550 mil.. 550 mil… 560. 560 mil…

A coisa ficou insustentável e eu bocejei. Um bocejo, em leilões como aquele, pode significar que você dobra o lance. São as regras não-escritas do leilão, ninguém discute isso. Bastou que eu abrisse a boca tentando oxigenar o cérebro para o leiloeiro se animar dizendo em tom firme:

- 1 milhão e cento e vinte mil Euros. Eu ouvi 1 milhão e cento e vinte e oito mil?

Fiquei tenso. Ninguém mais ofereceu outro lance.

- Dou-lhe uma.

Eu ia arrematar o copo rachado de Degas, sem querer.

- Dou-lhe duas.

Olhei em volta, na esperança de alguém ter coçado a cabeça ou ajeitado os óculos, para que eu pudesse acusá-lo (“Ele ali, ó!”). Mas nada.

- Dou-lhe três. Vendido para o cavalheiro de sombrero e pantufas de pata de urso.

(Eu sempre vou vestido assim aos leilões para ajudar o leiloeiro a me descrever, num caso desses.)

Pronto. Era meu, todo meu. Aquele copo rachado. Pela bagatela de 1 milhãos e cento e vinte mil Euros. Perguntei se eu podia, ao menos, trocar por um copo que estivesse em melhor estado. Não deixaram. Tive que levar aquele mesmo, que tinha a rachadura de Degas.

Hoje, só bebo naquele copo. Levo-o aos restaurantes e peço que me sirvam a bebida, seja ela qual for, naquele copo rachado. Saiu bastante caro e eu preciso fazer valer o investimento.

Você pode pensar que a vida de detetive particular é moleza. Que basta ficar lá sentado no seu escritório, bebendo bourbon e esperando alguma loira hitchcockiana entrar pela porta. Sim, você pode achar que um detetive, desses clássicos, só se envolve em casos interessantes e cheios de intrigas. Você pode imaginar aquele sobretudo, o chapéu, a fumaça de cigarro e os enigmas intricados que ele, o detetive, resolve.

Você pode pensar tudo isso, como eu também já havia pensado. E foi por isso que, depois de um curso por correspondência de detetive particular e umas partidas de Scotland Yard, aluguei uma salinha na Teodoro Sampaio – entre uma loja especializada em gaitas de fole e um estúdio de gravação especializado em mambo -, onde comecei a atender.

“Daniell, Sapateador”, dizia a plaquinha da porta. Eu não encontrei nenhuma plaquinha que tivesse os dois Ls de “Daniell” e disesse “Detetive Particular” em seguida. Então, fiquei com essa de “Sapateador” mesmo.

Na minha imaginação pueril, eu ainda tinha aquela imagem do detetive que conhecemos de filmes, a mesma que já descrevi aqui. Descobri a duras penas todas as dificuldades daquela vida.

Pra começar, apesar das dicas do curso por correspondência, eu continuava péssimo como enigmas. Não consigo adivinhar sequer a resposta daqueles “o que é, o que é” mais básicos e ainda me enrolo em jogos dos sete erros. Que dirá desvendar um assassinato misterioso ou o estranho sumiço de um diamante raro.

No entanto, o mais difícil mesmo foi deixar a salinha pronta e arrumada, para o caso de a loira hitchcockiana aparecer ali.

O que complicou foi que eu não fumo. Então não tinha como ter a fumaça do cigarro, elemento essencial em qualquer bom escritório de detetive particular. Para improvisar, coloquei um incenso sobre a mesa. A fumaça funcionava e os mais desavisados poderiam até pensar se tratar de um cigarro. Mas o cheiro era o problema. Em pouco tempo, a salinha ficou cheia de pessoas interessadas em aulas de ioga.

Eu sei tanto de ioga quanto sei de investigações: nada.

Mas não poderia decepcionar os clientes. Então, comecei a dar aulas de ioga. Improvisava posições, todas bem difíceis para quem, como eu, estava de sobretudo, chapéu e sapatos de sapateado.

Apesar de tudo, as aulas iam bem. Eu fazia algum sucesso e sempre havia gente querendo aprender ioga na minha salinha. A coisa foi se espalhando e um dia ela entrou na sala, a loira hitchcockiana.

- Olá, boneca. – falei com ela do jeito que o curso por correspondência ensinava os pretensos detetives a falar com mulheres.

- Dizem por aí que você dá aula de ioga.

- Eles dizem muitas coisas, boneca.

- Eu quero ter aulas de ioga.

- Veio ao lugar certo, boneca. Dizem que eu sou o melhor.

- Se é o que dizem…

A garota era uma bomba.

Todo homem cresceu admirando as loiras hitchcockianas. Por mais que você, como eu, acabe descobrindo uma preferência pelas morenas audreyhepburnianas, as loiras hitchcockianas continuam existindo e merecendo a sua admiração, aquela mesma de quando você era garoto e viu Grace Kelly em “O Ladrão de Casaca”.

E talvez seja justamente por remeter aos tempos mais ingênuos que, quando se depara com uma delas, o homem se empenha com o único objetivo de impressioná-la. Exatamente como faz o garoto da escola na aula de educação física.

Sim, admito. Eu quis impressionar aquela loira hitchcockiana, como se eu fosse novamente um menino de, sei lá, treze anos. E por isso desenvolvi para ela uma aula de ioga especial, mais difícil, tentando mostrar a maestria com que eu me contorcia sem deixar o chapéu cair (ele estava, por garantia, colado com fita crepe na minha cabeça). Foi por isso que eu decidi inventar um movimento mais complicado.

A loira hitchcockiana, coitada, tentou imitá-lo exatamente como eu havia feito. Destroncou-se toda, a coluna cervical foi parar nos quadris e os quadris eu não sei ainda onde foram parar. Sei que a loira hitchcockiana saiu da salinha numa maca, direto para o pronto-socorro do Hospital das Clínicas.

Nunca mais tive notícia dela, só do advogado dela. Mas estamos nos entendendo bem, o advogado e eu. Ele também usa sobretudo e chapéu. Então, no decorrer do processo, entre uma acusação e outra, temos conversado bastante sobre marcas de sobretudo e como prender bem o chapéu na cabeça. É um bom sujeito, o advogado da loira hitchcockiana. Também entrou nisso de advocacia por causa das intrigas e as salinhas. A vantagem que ele leva é que ele, sim, fuma.

Um dia, acordei com uma ligação. Naturalmente, isso já havia acontecido mais de uma vez. Mas só daquela vez era o ¥jaarstörbårg. Atendi o telefone, com a voz de sono:

- Só sucesso. – eu costumo atender o telefone dizendo “só sucesso”, pro caso de ser uma promoção dessas de rádio AM oferecendo um prêmio para quem atender assim.

- Daniell? – perguntou a voz do outro lado, fazendo-me perceber que não era uma rádio AM e, infelizmente, eu não iria ganhar um prêmio (é sempre uma decepção quando acontece).

- Sim, sou eu. Ou coisa assim.

- Faaaaaaaala, Daniell! – disse, eufórico, tão eufórico que eu pensei que eu fosse, enfim, ganhar um prêmio.

- Oi.

- Não tá me reconhecendo?

- Claro que não. – assim, de manhã, pego de surpresa, meu raciocínio fica lento demais para eu ser falso.

- Aqui é o ¥jaarstörbårg!

O nome não me era estranho, apesar de ser bem estranho. Quando eu estava me esforçando para lembrar de onde o conhecia, ¥jaarstörbårg ajudou:

- Estudamos juntos na sexta série B!

Sim, claro. ¥jaarstörbårg. O garoto que sentava na frente da sala na terceira série B. Lembro que havia chegado à escola como parte de um programa de intercâmbio. Era da Suécia ou de Serra Leoa, não lembro bem.

- ¥jaarstörbårg! Quanto tempo! Como estão as coisas na Suécia?

Ele corrigiu. Era de Serra Leoa. E explicou que agora estava no Brasil de novo, que estava marcando de juntar o velho pessoal da sexta série B para relembrar os bons tempos.

Combinamos naquele barzinho que ficava em frente à escola, só para termos a vista para o portão de entrada.

O barzinho não existia mais. Era agora uma clínica de raio-x. Ainda assim, marcamos lá. Todos nós solicitamos radiografias variadas – eu pedi dos pulmões, porque gosto do desenho que eles fazem na chapa – e ficamos ali, conversando na sala de espera, como se fosse um bar.

Sempre é bom reunir o pessoal e ver como todo mundo está mudado. Dois deles estavam casados, três divorciados e um já tinha um filho de 5 anos que era pianista da filarmônica de Berlim. O garoto ainda morava com o pai, no Brasil, e fazia os concertos por telefone, ligado no viva-voz.

Lembramos de histórias muito legais. Por exemplo, do dia em que ¥jaarstörbårg se meteu em uma confusão com os garotos da oitava série por causa de um misto quente e um radiador velho.

Teve também o dia em que eu respondi todas as questões de geografia usando regra de três. Eu havia estudado para a prova errada. Tirei 2,5 porque acertei quantos afluentes tem o Amazonas – “muitos”, era a resposta certa.

Ficamos lá, conversando e tirando chapas de raio-x até altas horas, relembrando os tempos de outrora. Até que ¥jaarstörbårg começou a falar qualquer coisa de um negócio parecido com a AmWay, mas que não era a AmWay porque só vendia artigos para pecuária.

A princípio, parecia bem estúpido comprar artigos para pecuária. Mas ¥jaarstörbårg explicou que a cada 100 Reais em compras, ganhávamos um cupom para o sorteio de uma linda caneca em forma de vaquinha. Todos nós compramos.

E agora estou com a varanda de casa entulhada de artigos para pecuária, esperando sair o sorteio. Tô de olho naquela caneca e o meu número é 592. Acho que vou ganhar, porque esse é meu número da sorte.

De todo o mistério a respeito da vida de Wilson Simonal, esqueceu-se de dizer o seguinte.

Na gravação dele de “Remelexo”, se tocamos ao contrário o trecho que diz “Essa aí é do Caetano”, podemos ouvir no antigo dialeto bielamês:

“Esse sim é da canhota.”

O mesmo trecho, se tocado em rotação acelerada, diz em costa-gavrense:

“Observe este admirável fenômeno da natureza, a Pororoca.”

E ainda, se tocado pausadamente em um toca-fitas antigo, diz em grumanês arcaico:

“Opa, tô com oitocentos mangos pra torrar no Free Shop.”

De tudo isso, podemos claramente concluir a respeito da polêmica do Wilson Simonal que:

Não sei.

Sábado agora tem festa. É o lançamento do livro com textos do Morfina e vai ter DJ e uma jam session com o Daniell aqui estragando umas músicas.

Vá sem saber o que esperar da festa e divirta-se. O livro está incluido na entrada.

Web

Fui convidado para compor a trilha de um filme de cinema. É a história de um aspirante a dançarino de valsa que precisa enfrentar a dificuldade de ser, na verdade, um alce e não um ser humano.

A história me pareceu interessante. E ainda assim, recusei o convite. Primeiro, porque não consigo compor valsas – só sei fazer cha-cha-chas e afins. Mas principalmente porque já tive experiências ruins com o cinema.

Na época, eu estava me lançando como roteirista. E quis escrever uma história que tivesse um grande vilão. Por isso, fiz uma vasta pesquisa sobre os maiores vilões da história.

Concluí que nenhum chegava aos pés de Ricardo III, naturalmente.

Veja, por exemplo, o Mxyzptlk da Liga da Justiça. Talvez você se lembre dele. Mxyzptlk era um homenzinho, algo parecido com um duende que ficava flutuando e atormentava os heróis usando de artimanhas – que, essas sim, eu já não lembro muito bem.

Era um bom vilão, é verdade. No entanto, bastava fazê-lo dizer seu nome ao contrário para que ele fosse arremessado de volta à sua dimensão. Não é o tipo de fraqueza adequada a um grande vilão, principalmente quando ele cai o tempo todo no velho golpe de mandá-lo ler o seu nome ao contrário.

Fico pensando se Ricardo III fosse enviado à dimensão de onde veio só porque disse “III odraciR”. Duvido muito que conseguisse chegar à cena do “meu reino por um cavalo”. Não tem como um vilão como Mxyzptlk render uma boa história.

Em defesa de Mxyzptlk, claro, tem o fato de o nome dele ser bastante complicado de se dizer, mesmo sem ser de trás pra frente. Mas ainda assim, não basta para acrescentar um caráter tridimensional ao personagem.

Acontece que, no meu roteiro para cinema, o vilão era uma espécie de mistura entre Ricardo III e Mxyzptlk. Procurei pegar os detalhes mais interessantes de cada personagem e juntei em um só.

Acabou ficando um sujeito corcunda que flutua no ar e apronta artimanhas – isso, Ricardo III e Mxyzptlk já tinham mesmo em comum.

Achei que bastava isso para que o vilão fosse um sucesso. Mas eu havia esquecido de criar um herói. E não existe vilão sem um herói para confrontar.

Na falta de herói no meu roteiro, o vilão tinha que desafiar um chapéu-coco. E perdia feio porque o acessório estragava o seu penteado no final.

A história não agradou ao público em geral – embora tenha sido muito elogiada por um fabricante de chapéus-coco. O filme deu um prejuízo nunca antes visto, ainda pior que os dos filmes do Kevin Costner.

E, desde então, tenho evitado trabalhar com cinema.

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