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Escrevi, na ocasião da minha chegada em Kepler-452b, uma carta para o QG na Terra. Reproduzo o texto aqui, para efeito de narrativa:

Caro QG,

Como estão as coisas?

Escrevo esta carta de em Kepler-452b.

Surpreendentemente, a atmosfera é respirável. Não apenas é respirável, como ainda tem um agradável aroma de Bom Ar Flores do Campo. A paisagem é um pouco árida, mas nada que o Burle Marx não pudesse resolver. O planeta tem espaço o suficiente para construirmos um bom estacionamento e uma piscina de ondas.

A gravidade é um pouco mais forte que na Terra. Ou talvez eu tenha comido demais na viagem. De qualquer modo, pensei em uma solução para a gravidade mais forte aqui. Basta fazermos as tabelas de basquete um tanto mais baixas.

Meu primeiro contato foi com uma estranha forma de vida. Ela tinha o formato de uma pedra, a coloração de uma pedra, o peso de uma pedra e rolava como uma pedra. Não se comunicava, nem por voz, nem por gestos. Passei horas tentando puxar assunto e sequer esboçava um movimento.

Esses estranhos seres parecidos com pedras estão espalhados por todos os lugares. Ficam estáticos, apenas observando – apesar de também não possuírem olhos.

Resolvi chamá-los de Keplerianos-452b. Enquanto não conseguir arrancar nada deles, vou continuar explorando o planeta por conta própria.

Mais adiante há uma grande montanha que pretendo escalar amanhã pela manhã. Lá de cima, posso ter uma vista melhor do planeta e talvez consiga sinal no celular.

Forte abraço,

Daniell

PS: Por favor, peçam para alguém ir lá em casa conferir se está tudo bem. Acho que, na pressa, deixei o forno aceso.

 

CONTINUA

Rocket Man

Meu primeiro destino foi Kepler-452b, um dos planetas possivelmente habitáveis descobertos pelos nossos cientistas. Para descobrir se um planeta tem chance de ser habitado, eles levam em conta alguns critérios. Por exemplo, uma temperatura que permita a existência de água em estado líquido, gravidade o bastante para reter a atmosfera e, preferencialmente, estar perto do trabalho.

Kepler-452b preenchia quase todos os requisitos e era para lá que eu deveria ir. Está há 1400 anos-luz da Terra. Mas evitando sair às seis da tarde, dá pra ganhar pelo menos uns 15 minutos com o trânsito livre.

Coloquei o destino no Waze e ele calculou a melhor rota sem pedágio. Mesmo assim, foi uma viagem entediante. O sistema de entretenimento de bordo só tinha o filme do Benji, que eu já havia visto algumas vezes antes e tudo que serviram foi uma barrinha de cereais.

Uma viagem dessas pode enlouquecer alguém. Primeiro, comecei a pensar que eu era o Robespierre e fazia discursos inflamados e planos de tomar a Bastilha. Felizmente, o delírio acabou antes que eu fosse guilhotinado.

Depois de mais um tempo sozinho, comecei a ouvir vozes. Fiquei preocupado quando elas começaram a cantar “Oceano”, do Djavan. Decidi que precisava de alguma distração, antes que as vozes passassem para o repertório Jorge Vercilo.

O que me salvou foi o livro do James Joyce que eu levei – uma edição de Finnegans Wake comentada pelo Gilberto Gil. Quando a nave pousou em Kepler-452b, eu ainda estava tentando entender a primeira página.

 

CONTINUA

Space Oddity

Faz um tempo já. Na época, eu havia esbarrado em um pequeno anúncio nos classificados de emprego. Eles procuravam astronauta para viagens espaciais. Embora estivesse satisfeito no meu trabalho como crítico de artesanato, resolvi me candidatar. Fiquei interessado na quantidade de milhas que poderia acumular no Smiles da Varig.

Foi assim que me lancei na carreira de viajante interestelar. Claro que nem tudo se resumia a pontos em programa de milhagem e vestir um uniforme bacana que me deixava com a voz do Darth Vader.

Tinha, por exemplo, a encrenca toda da relatividade.

Você sabe. O tempo passa mais devagar para quem está viajando em uma velocidade próxima à da luz. Só quem passou por isso sabe a aporrinhação que é. Um miojo leva pelo menos dois meses para ficar pronto. E o pior dos mundos, um filme do Glauber Rocha pode durar 14 anos.

Depois de viajar um tanto, consegui que minhas exigências fossem atendidas. Eu iria viajar devagar, sem pressa, vendo a paisagem e parando de vez em quando num Graal ou Frango Assado para um salgadinho e um café.

Minha missão era viajar por aí em busca de um planeta habitável. Foi bem na época do boom imobiliário e o aluguel de um apartamento de dois quartos perto da Paulista estava impraticável.

(continua)

Mr. Lucky

Admito que sou um sujeito de sorte. Tenho exemplos que comprovam isso: já ganhei um carro em um sorteio da Coca-Cola e uma raquete de matar mosquito em uma rifa de festa junina. Sei que sorte assim é para poucos.

No entanto, mesmo a sorte deve ser usada com alguma moderação.

Quando estive em Las Vegas, por exemplo, abusei. Primeiro, nos caça-níqueis. Eu puxava a manivela e a máquina já cuspia os prêmios. No começo, só moedas. Depois de um tempo, ela já começou a me cuspir mais coisas: passagens de avião para lugares exóticos, sorvete de doce de leite, dicas de investimento e uma outra máquina caça-níqueis para que eu pudesse ganhar ainda mais prêmios.

Foi aí que eu ganhei confiança. E isso, meu amigo, pode ser um perigo.

Deixei o caça-níqueis de lado e fui para a roleta. Não gostei de nenhuma das opções de números – nem dos vermelhos, nem dos pretos – e apostei tudo na raiz quadrada de dois. O crupiê me alertou que eles não tinham números irracionais na roleta. Ignorei o aviso e apostei mesmo assim.

A roleta girou durante longos segundos e todos ficaram espantados quando deu justamente a raiz quadrada de dois.

Tudo que apostei, ganhei em dobro. Inclusive o sorvete de doce de leite.

Se eu puder dar um conselho para quem for a Las Vegas jogar nos cassinos, aqui vai: não ganhe demais.

Enquanto eu ainda estava comemorando, dançando o zouk da vitória em cima da mesa da roleta, apareceram dois capangas gigantescos. Eles me arrastaram para uma sala escondida onde um capanga bem franzino me aguardava. Foi aí que eu estremeci.

Ele parecia bem irritado. Como se tivesse pegado um trânsito terrível na Rebouças para chegar ao trabalho.

“Então, você é um desses sortudos, né?”, ele disse em um tom de voz desagradável.

Em seguida, o capanga franzino puxou um martelo e disse: “você vai ver o que fazemos com sortudos do seu tipo”.

Ele ergueu o martelo e, com toda força, pregou um prego na parede, onde pendurou um quadro do Roberto Camasmie. Era um autorretrato.

Em seguida, os três capangas saíram da sala e me deixaram olhando aquele quadro durante cinco minutos. Quando não aguentava mais, gritando “me tira daqui! Me tira daqui!”, eles entraram novamente e tiraram o quadro.

Falei com o capanga franzino: “Entendi o recado”. Ele me deixou ir embora e nunca mais coloquei os pés em um cassino. Gente do meu tipo não é bem vinda nesses lugares.

[continuando o texto anterior]

Tinha uma gangue à solta que alugava fitas de vídeo e devolvia sem rebobinar. Eu precisava fazer alguma coisa. Com todos os donos de locadora morrendo de medo de dar com a língua nos dentes, tracei um plano arriscado.

Aluguei uma lojinha de galeria e fiz uma locadora. Claro que era apenas um negócio de fachada, para atrair os criminosos. Mas eu quis dar um toque de charme naquilo. Decidi que seria uma locadora especializada em Encouraçado Potemkin. Era o único filme disponível, mas tinha duas cópias.

Calculei que a notícia se espalharia rapidamente. Qualquer pessoa interessada no Encouraçado Potemkin iria lá para alugar. E com a notícia circulando, os bandidos apareceriam. Era só questão de tempo.

Passaram-se poucos meses e a gangue já havia atacado em todas as locadoras da cidade. Sobrou apenas a minha. Eu estava alerta quando entrou na loja um grupo de cinco homens bastante suspeitos. Pareceram suspeitos porque vestiam meias na cabeça.

O líder deles (facilmente identificável porque usava uma coroa do Burger King), aproximou-se do balcão perguntando se eu tinha “Benji, um Amigo Especial” para alugar.

Expliquei que só tinha Encouraçado Potemkin, mas que no andar de cima da galeria havia uma locadora especializada nos filmes do cãozinho Benji. Ele perguntou se Encouraçado Potemkin era do mesmo diretor de Benji e eu, pra fechar negócio, respondi que sim.

Em seguida, era só esperar os marginais reaparecerem com a fita não rebobinada e algemá-los. Seria fácil.

Eles voltaram, como previsto, sem rebobinar a fita. Antes que eles saíssem da minha loja, gritei:

– Parados! Vocês estão presos, seus vermes!

Mas eles não se entregaram fácil. Tivemos uma terrível troca de insultos – alguns acabaram atingindo a pobre senhora que tinha um armarinho ao lado da minha loja.

Chamei reforços e rapidamente chegaram outros policiais armados de insultos mais pesados. Eles acabaram se rendendo quando um de nós começou a ofender as mães deles.

Os paramédicos chegaram para atender a senhora do armarinho e eu gostaria de dizer que a cidade estava segura novamente. Mas enquanto houver deliquentes por aí fazendo toda sorte de atrocidades nas locadoras de vídeo, como estaremos seguros?

Hoje mesmo eu estava relembrando a época em que trabalhei como detetive de polícia. Foi uma passagem curta, tudo culpa de um teste vocacional que fiz. Deu desespero, com a prova à minha frente, colei do sujeito que estava ao meu lado. Acredito que ele sim tenha se tornado um bom detetive.

Mesmo na minha breve passagem, cheguei a pegar um caso importante. Era uma gangue barra pesada. O lance deles era alugar fita de vídeo nas locadoras e devolver sem rebobinar. Todos tinham medo mexer com eles, mas o caso caiu nas minhas mãos e eu não iria deixar esses bandidos à solta cometendo atrocidades desse tipo.

Eles eram a doença, eu era a cura. Ou pelo menos um chá revigorante.

Segui a cartilha da investigação. Comecei procurando o meu informante. Ele não sabia nada sobre a gangue, mas em compensação me deu umas dicas excelentes de onde comprar camisas a preço de fábrica. Em seguida, fui conferir a cena do crime, a última locadora onde os bandidos haviam atacado. O dono do lugar estava apavorado, com medo de falar demais e sofrer qualquer tipo de retaliação.

– Eles são capazes de tudo. – ele disse – Você precisa ver o que eles fizeram com a fita do Titanic.

Ele me levou até os fundos da locadora e abriu uma gaveta. Dentro da gaveta estava a fita de vídeo, coberta por um pano. Quando ele puxou o pano, eu tive que me conter para não vomitar as tripas. A cena era lamentável. A fita havia rodado apenas até a metade, mais ou menos no trecho em que o Leonardo di Caprio grita que é o rei do mundo na proa do navio. Não apenas eles não haviam rebobinado a fita, mas também os canalhas sequer foram até o final daquela linda história de amor.

Saí da locadora para pegar ar. Um caso desses faz você pensar. Eu havia visto a sujeira que o ser humano é capaz de fazer. Não quero viver em um mundo onde as pessoas não devolvem as fitas devidamente reboninadas nas locadoras. Era pessoal. Eu precisava levar o caso adiante. Não me importava mais se eu precisaria descer ao submundo do crime, remoer as vísceras daquela maldita cidade.

CONTINUA

As pessoas que me conhecem bem, aqueles amigos de longas datas, os parentes mais próximos, eles já devem ter percebido uma coisa a meu respeito: eu uso óculos.

Quando você usa óculos, acontece de tempos em tempos de precisar trocá-los, seja porque o grau da miopia mudou, seja pra usar uma armação mais descolada e moderninha. Aconteceu ontem comigo uma conjunção dos dois casos.

Pra começar, encontrei em uma viagem recente uma armação que teve a garantia do vendedor:

– É moderno sim. Muito moderno. Tão moderno que era isso que se usava lá nos anos 30. Você só não vê ninguém usando isso porque está o mundo inteiro fora de moda.

Eu já estava propenso a comprar a armação nova, mas fui convencido definitivamente quando o vendedor me ofereceu uma bonita caixa com um paninho que, além de limpar as lentes, também combinava muito bem com a cortina lá de casa. Não sou de deixar passar uma oportunidade dessas.

Levei a armação e deixei em uma ótica no shopping, para que colocassem lentes novas, com um grau mais alto.

Acontece que ontem mesmo peguei os óculos novos, com as lentes novas. Bastou eu sair da ótica para enxergar tudo direito. E enxergando direito, descobri que não estava no shopping, como havia pensado. Estava no supermercado. Em vez de ótica, havia deixado a armação para colocar lentes no setor da peixaria.

O peixeiro, apesar de um pouco confuso, fez um bom trabalho colocando lentes na armação.

Graças aos novos óculos, percebi também que o livro que estava lendo não era Os Miseráveis do Victor Hugo, mas sim O X da Questão, de Eike Batista. Voltei imediatamente ao peixeiro e pedi que colocasse um grau mais fraco. O livro estava melhor antes.

O peixeiro colocou lentes mais fracas nos óculos e me deu uma tilápia, em agradecimento por ser um cliente frequente. Fiquei feliz com o reconhecimento, embora o presente não me tenha sido muito útil.

Veja bem: as tilápias de peixaria costumam estar mortas. E uma tilápia morta não tem muito valor para quem, como eu, não sabe cozinhar. Se estivesse viva, poderia ao menos servir como um bom animal de estimação. Eu a chamaria de Genoveva e ensinaria a buscar o jornal na porta de casa.

Talvez se eu a levar a um bom veterinário, ele possa dar um jeito.

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