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Tenho por hábito ser contra o governo, qualquer que seja o governo. E sou a favor de manifestações, de passeatas e de revolta popular. Mas não participo hoje, porque já participei dessas coisas antes e tenho um certo trauma. Vou tentar contar como foi, embora ainda seja difícil relembrar.

Foi nos anos 70, num protesto contra o aumento do preço da calça boca de sino. Claro que tinha mais coisa por trás, como o atraso no lançamento dos discos dos Bee Gees e a diminuição do número de espelhos nos globos espelhados. A situação chegava a um ponto inaceitável.

Os partidos no poder eram o PDLTBdoB e o PXW. Os dois tinham ideologias completamente opostas: enquanto um gostava de siglas grandes, o outro preferia as mais curtinhas. Jamais haviam chegado a um acordo quanto a isso, embora lá no fundo tivessem interesses em comum (ambos preferiam as calças saint-tropez de boca fina).

Admito que fui um desses vândalos de que se fala hoje: durante a manifestação, cheguei até a ultrapassar a linha amarela na plataforma do metrô. Eu sabia que corria o risco de a polícia me jogar gás lacrimogêneo na cara.

Lembro bem como o gás lacrimogêneo era desagradável. Você fica se sentindo como um desses participantes do Lata Velha do Luciano Huck, chorando descontroladamente.

Mas eu era provocador, insolente. Eu sei que merecia tiro de borracha na cara. Quando pedi para o policial parar com o gás lacrimogêneo, sequer pedi “por favor”. E eu levava não apenas vinagre, mas também aceto balsâmico. Coisa da pesada.

Lembro que em certo momento a coisa fugiu do controle e eu mesmo fiquei preocupado de estar ali no meio. Há limites: algumas pessoas na multidão pararam com os gritos de protesto e começaram a cantar os hits do Clube da Esquina, ignorando os nossos pedidos de moderação.

Foi aí que a polícia veio com tudo: barbantinho cheiroso, spray de pum e sangue do diabo.

No final, colocaram vídeos da Galinha Pintadinha, deixando todos nós hipnotizados. Eles eram opressores sim, mas há de se admitir: era um tempo em que as tropas sabiam melhor como controlar multidões.

Do movimento, no final das contas, apareceu mais um líder político. Ele se candidatou a algum cargo, foi eleito e aí sim veio a decepção: saíram fotos dele no jornal, usando as mais caras calças boca de sino.

Ainda assim, mesmo descrente, acho bonito a população ir às ruas. Mesmo que não tenha carro alegórico e Paulinho da Viola tocando.

Já fui um guitarrista virtuoso. Ou “virtuose”, como gostávamos de ser chamados. Era o começo dos anos 90, antes do surgimento do Nirvana, e o que importava então era solar acelerado. Acredite: eu era bem veloz. Cheguei a tocar Stairway to Heaven completa em menos sete segundos.

Mas meus solos eram mais que rápidos. Eu alcançava notas que ninguém nunca havia escutado antes: precisaram inventar nomes diferentes para elas. Atingia frequências sonoras que apenas cachorros podiam escutar – e ainda assim, só os que estavam mais atentos.

Minha guitarra tinha mais cordas: trinta, no total. As mais agudas eram tão finas que não podiam ser vistas a olho nu.

A minha interpretação virtuosa de Fui No Tororó tinha tantas notas compactadas em um compasso, que dava pra reescrever a obra completa de Beethoven com elas.

E tinha o volume do som, nos shows. Eu usava setenta e oito amplificadores no volume máximo. E mais dois bem baixinhos, só pra completar a parede de som atrás de mim no palco.

O som da minha guitarra era tão alto que eu cheguei a causar danos na estrutura do Maracanã. Quando toquei no Morumbi.

Eu gostava também da pirotecnia. Meu show sempre tinha velinhas daquelas de aniversário que soltam estrelinhas. Elas acendiam justamente quando tocava “Parabéns pra Você” na versão virtuosa, que incluía trechos superacelerados de O Anel dos Nibelungos de Wagner.

Naturalmente, naquela época de busca pelo virtuosismo, fiz bastante sucesso. Meus clipes seguiam a cartilha. Todo clipe precisava mostrar o guitarrista virtuoso tocando em um local exótico e de difícil acesso. Gravei vários numa lojinha da 25 de Março pouco antes do Natal.

Com o sucesso, vieram as regalias. Eu era um desses roqueiros exóticos: pedia apenas duas toalhas no camarim, e não precisavam ser lá muito brancas.

Mas isso foi até aparecer o grunge. Depois, caí no ostracismo. Aposentei a guitarra e resolvi tentar o oboé. Não tive muito sucesso, porque as orquestras não compreendiam o meu oboé personalizado com pinturas de cores gritantes.

Sou um pacifista. Não que eu me sinta superior, uma espécie de Gandhi mais míope ou coisa assim. A verdade é que sou pacifista em interesse próprio. Porque se você é ruim em assuntos de guerra como eu sou, é mais conveniente ser um pacifista.

Sim, porque eu já estive na guerra. Mais que isso, eu já comandei um exército. Aconteceu em uma pequena ilha isolada no Oceano Índico. A ilha se dividia em dois países: à direita, um país socialista; à esquerda, um país capitalista. A posição geográfica era bastante confusa e o país da direita resolveu invadir o da esquerda – ou o contrário, dependendo do sentido que você dá a “direita” e “esquerda”.

Eu vivia no país da esquerda, escolhido não por ideologia política, mas porque ficava mais perto do supermercado. Quando os rumores da possível invasão do país da direita chegaram, precisamos organizar nossas forças armadas às pressas. Me colocaram como general, porque a vaga de maestro da fanfarra já havia sido ocupada. E eu fui o responsável pela nossa estratégia na guerra.

Em retrospecto, percebo hoje onde falhei. Li às pressas o Arte da Guerra do Sun Tsu e não percebi que estava lendo de cabeça para baixo. No trecho, portanto, que dizia que a melhor posição estratégica era no alto e ficaria em desvantagem o exército que, por exemplo, estivesse posicionado na base da colina, entendi justamente o contrário. Concluí que precisava estar no pé da colina, para que o exército inimigo viesse de cima.

Como na ilhota não havia colina alguma, cavei um enorme buraco no chão, onde coloquei todo o meu exército. Enfurnados dentro do buraco, nós sequer vimos os soldados inimigos avançando pelas laterais.

O exército da direita tomou a capital com facilidade. Seus homens trocaram a bandeira do forte, fizeram uma série de pronunciamentos oficiais na TV local, mandaram imprimir moedas com a imagem do chefe de estado deles e reescreveram o hino nacional deles para incluir, junto com “nossos campos verdejantes”, o trecho “nossas plantações de milho também”. Tudo isso sem que soubéssemos.

Quando saímos do buraco, a ilha já era um território unificado. Perdi a guerra sem nem ter participado. Por um lado, foi bom: com a minha estratégia, evitei derramamento de sangue. E eu não tinha à mão um tira-manchas eficiente pro caso de sujarmos as fardas.

Muito se fala das mitologias grega e romana. Todo mundo já leu alguma coisa a respeito, já viu a Medusa de Ray Harryhausen, já teve a versão do Maurício de Souza para Os Doze Trabalhos de Hércules. Mas nunca ouvi ninguém falar da mitologia Dudinkense.

Dudinka, conhecido apenas como aquele território do War que não tem lá muito valor estratégico, tem uma cultura bastante rica, com lendas e histórias incríveis.

Por exemplo, o Jacaré-Crocodilo. Trata-se um mítico ser que é metade jacaré, metade crocodilo – daí o nome.

O Jacaré-Crocodilo costuma ser confundido com o Crocodilo-Jacaré, da vizinha Omsk, mas é simples diferenciá-los. O Crocodilo-Jacaré tem a metade da frente crocodilo e a metade de trás jacaré, enquanto o Jacaré-Crocodilo tem a metade da direita jacaré e a da esquerda crocodilo.

Além disso, o Jacaré-Crocodilo é bastante mais feroz que o seu primo Omskiano e tem mais facilidade para aprender o Zouk. Por isso mesmo, é muito mais temido.

O único ser mitológico de Dudinka mais temido, aliás, é o Grifo Alado. Ele é como um Grifo convencional, só que com o dobro de asas. Mais que isso: o Grifo tradicional tem asas de águia, enquando o Grifo Alado, além das asas de águia, tem o sistema digestivo de um pombo.

Contam que o Grifo Alado Dudinkense é imune a cortes, tiros ou golpes, o que o torna praticamente invulnerável. No entanto, é um animal bastante sensível a agressividade verbal.

Recentemente troquei o meu velho carro, o Robusto, por um carro novo. Pensei em trocá-lo por outra coisa, como uma piscina de raia olímpica cheia de doce de leite. Mas fui alertado sobre a dificuldade de consumir isso tudo de doce de leite antes de acabar o prazo de validade (minha outra opção era um provolone de 100 quilos, mas logo mais tem a rifa da festa de Santa Achiropita).

No final das contas (e admito que me faltou imaginação), troquei por outro carro mesmo, já batizado de Senhor Miyagi.

É claro que não foi fácil me despedir do bom e velho Robusto. Volta e meia ainda me pego relembrando os grandes momentos que tive com ele. Como quando passei a usá-lo como off-road.

Não foi bem a intenção inicial. O que aconteceu, na verdade, foi que eu errei uma saída da Dutra. Chovia bastante e eu caí em uma estrada enlameada, em meio a outros carros, todos 4×4 enormes e cheios de adesivos impressionantes. Algo me dizia que era um Rally.

Uma vez entre os competidores do Rally, não tive escolha: entrei na corrida. Como eu não tinha GPS, instruções, mapa, sinalização ou senso de localização adequados, tudo que pude fazer era seguir os outros carros e torcer para que o Robusto não atolasse.

Se tem um truque que eu aprendi para não atolar o carro é: jamais entre em um Rally. Apesar de ter sido sempre um carro confiável e resistente, o Robusto acabou atolando.

Para sair, foi preciso um cabo de aço, um jipe 4×4 e uns cinco artesãos de feirinha hippie, que fizeram lindas carrancas com a lama que ia sendo lançada ao alto com o movimento das rodas.

Naturalmente, o Robusto saiu de lá bastante sujo. Muito sujo. Levei a um lava-rápido, onde me disseram que só poderiam entregá-lo limpo depois de duas semanas. Recomendaram até mesmo que eu procurasse a seguradora, porque aquilo ali podia ser considerado perda total.

Minha geladeira estava fazendo barulhos esquisitos. Começava com um “tsc” e depois vinha algo que pensei, inicialmente, tratar-se de uma gargalhada. Só depois percebi: ela estava tentando cantar a introdução de “You’re the Top”, na versão de Ella Fitzgerald.

A bem da verdade, depois de um tanto de ensaio ela pegou o jeito. Cantava até bem afinada, embora errasse a letra de vez em quando. Costumava se enrolar especialmente no trecho que fala do nariz do Grande Durante. De resto, ia bem e eu comecei a levá-la em clubes de jazz para fazer suas apresentações.

Não sei se foi uma boa ideia. Com o gostinho da fama, minha geladeira começou a querer mais e mais. Ela viajou para Nova York, para se apresentar no Village Vanguard. Senti muito sua falta – especialmente da pizza congelada que ela havia levado junto.

Mas ainda ia piorar. Depois de percorrer o circuito do jazz, ela concluiu que o público era muito limitado. Pouca gente, a maioria não se empolgava muito. Ela queria ver o pessoal tirando o pé do chão, arrastar multidões. Por isso, decidiu variar o repertório.

Quando minha geladeira começou a ensaiar Kid Abelha, chamei o técnico. Ela se calou para sempre, mas assumiu outro comportamento estranho: agora ela começa a esquentar a comida, em vez de gelar. O microondas, que fica a seu lado, está preocupado. Parece que ela quer puxar seu tapete.

Blue Skies

O homem do tempo do telejornal é, antes de tudo, um altruísta. Ele poderia usar seus dons de clarividência para prever, em benefício próprio, os números da loteca. No entanto, prefere usá-los para dizer aos telespectadores se vai dar praia ou não.

Não pense que é fácil o trabalho do homem do tempo. Eu mesmo já fui homem do tempo e acabei desistindo – não era pra mim. Foi uma carreira curta, mas intensa.

As pessoas cobram. Cobram muito. Você não pode errar. Por isso, eu sempre procurava abrir ao máximo o campo de possibilidades:

“Sol intenso, pelo menos acima das nuvens, dia perfeito para ir à praia, mas com possibilidade de chuva, neve ou vulcões em erupção. Temperatura na casa dos graus Celsius, Farenheit ou, se der algum problema, Kelvin.”

Acabei depois desenvolvendo um truque melhor. Era só fazer previsões bem pessimistas. Se eu errasse, as pessoas ficariam felizes demais para reclamar.

A cobrança, no entanto, vinha de todos os lados. Quando previ céu azul, por exemplo, recebi centenas de e-mails de daltônicos irritados.

E então a coisa caiu na rotina. Não há muitas possibilidades nisso de prever o clima: chuva, sol, nublado, tempestade, pancadas de chuva, garoa. Em poucos meses nessa profissão, você já viu de tudo. Para combater o tédio, resolvi inovar: criei minha própria escala, que chamei de Escala Rezende, em homenagem ao Resende, o time de futebol, embora com a grafia errada.

A escala ia de vinte e pouquinhos a vinte e tantos graus Rezende. A temperatura ideal era vinte e poucos graus Rezende, quando dava para ir à praia pegar um sol e, ainda assim, usar aquele casaco estiloso que você comprou na viagem a Paris. Lembro de quando eu previ uma temperatura de vinte e cacetada graus Rezende. O prefeito decretou estado de alerta e a venda de Chicabon disparou como nunca na história.

A maior inovação da Escala Rezende é que eu tirava a temperatura nos dados. Além de economizar uma fortuna em equipamentos e pesquisa, se a previsão estivesse errada, a culpa não era minha – era dos dados.

Minha carreira de homem do tempo foi interrompida quando eu previ os números da loteca em vez do clima para a semana. Aparentemente, alguma associação de meteorologistas ficou um tanto irritada comigo, porque eles tiveram que dividir o prêmio da Mega Sena com 190 milhões de outras pessoas.

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