
Achei que seria de mau tom incomodar a pessoa ao meu lado, pedindo para me filmar invadindo no palco pelado. Então, não há nenhum registro do momento, infelizmente. Exceto na minha memória – e na do pessoal da fila 1 no setor A.
Tudo que fiz foi tirar essa humilde foto, discretamente, enquanto o lugar ainda estava vazio, com a câmera do meu celular. Acho que dá pra ter uma ideia de como é espetacular essa Filarmônica de Berlim. E esse aí é o salão pequeno, de música de câmara. Diferente do que se pode esperar de uma sala de concertos tradicional na Alemanha, essa aí é moderníssima.
De resto, o concerto se dividiu em três partes.
No primeiro ato, o quarteto de cordas de Beethoven, que foi o motivo para eu estar ali. Não decepcionou, e a expectativa era grande. Foi perfeito.
A segunda parte trouxe uma première. Era uma peça de um compositor vivo (ou, ao menos, meio barro, meio tijolo), que estava lá para ser ovacionado. Foi interessante, porque nunca antes eu havia visto vaias em um concerto. E vaia em alemão machuca de verdade.
Acontece que a obra do sujeitinho só trazia umas notas sustentadas ao limite da exaustão, numa agonia que deve ter durado quase meia hora (mas foi mais difícil de aturar que meus dois anos de faculdade de economia). Era uma dessas coisas pseudo-modernas, arrojadas e muito à frente do nosso tempo. Insuportável. E os músicos tocavam com tal seriedade, que eu cheguei a dar algumas risadas, achando que era um esquete do Monty Python.
No meio da música, um senhorzinho começou a tossir. E o curioso é que ninguém sequer olhou feio pra ele. Assim que terminou a música, alguns aplaudiram por educação, outros porque acharam que gostaram mesmo, outros não aplaudiram e o resto começou a vaiar.
Tudo indica que esse compositor ainda vai contar a história de como sua finalmente reconhecida obra-prima, que mudou a história da música, foi vaiada na première. Espero que isso aconteça, porque aí eu vou contar para meus filhos:
- Papai estava lá. E quase jogou um sapato na cara do violoncelista.
Honestamente, não aceito isso de música erudita contemporânea. Já tentei fazer uma composição de sucesso, mas o mundo não entendeu. Era o meu Concerto para Reco-reco, Serra elétrica, Matraca e Orquestra de Gaitas-de-Fole número 2. O primeiro havia ido bem, mas era mais conservador. Dessa vez, eu quis revolucionar. Coloquei na partitura que todos os músicos deveriam tocar vestidos de gorila. O público não aceitou e fui vaiado, como o compositor da música de ontem.
Por isso, entendo como ele se sentiu. Espero, no entanto, que ele também entenda como eu me senti, ouvindo aqueles sons irritantes logo depois de um quarteto de Beethoven.
Mas depois terminou tudo bem com Mendelssohn.