Adquiri faz um tempo o estranho hábito de deixar sempre um post-it colado no computador. Um post-it sem nada escrito.
Para me lembrar que não tenho nada de muito importante para me lembrar. Nem para fazer. Só estou fazendo hora pra alguma coisa realmente importante. Até lá, levo uma vida simples, sem grandes realizações.
Minha maior conquista foi abrir um pote de palmito que estava fechado demais. Foi uma grande vitória, dessas que pretendo contar para meus netos, se sobreviver para conhecê-los.
Meus netos, eu direi, um dia eu abri um pote de palmito que parecia impossível.
Espero que isso dê ânimo aos garotos. Torço para que, naqueles momentos difíceis, eles pensem: “se o vovô conseguiu abrir um pote de palmito, eu consigo qualquer coisa.”
Mas não foi fácil. Foi um épico. Para abrir o pote, precisei de um lança-chamas, um capacete de rugby, um martelo e dois chinelos velhos. Foram dois dias martelando a tampa do pote, até que ela cedesse um pouco. Em seguida, foi só usar o lança-chamas, o capacete de rugby e os chinelos velhos, como se faz normalmente.
E mesmo essa grande conquista teve seu lado triste.
Assim que abri o palmito, lembrei que não era palmito o que eu queria, mas sim um bom carré de cordeiro ao molho de menta.
Desde então, deixo o post-it em branco no meu computador. Assim, quando eu acho que sou importante, olho para ele e lembro que sou só o Daniell, sem grandes compromissos, nem grandes realizações. Mas com um talento incrível para abrir potes que não me interessam.
